Vampiro

Achei esse texto que transcrevi há anos de algum livro da linha Vampiro: A Máscara (ou foi Vampiro: O Réquiem?)

São três da manhã e eu ainda estou tentando descobrir como é bom estar morta. As ruas estão escorregadias por causa da chuva, e a luz dos postes reflete no asfalto molhado com se Deus quisesse cobrir cada buraco habitado pelos homens com um halo. Eu consigo ver um carro fazendo a curva, um quarteirão depois da rua Locust. Posso até mesmo ler qual é a placa daqui – jamais seria capaz de fazer isso quando estava viva. No fim da rua, eu vejo as árvores na Praça Rittenhouse, e posso jurar que consigo contar cada folha, e cada gota de chuva em cada uma delas.

Eu vejo tudo, e tudo é tão belo.

Eu o vejo também. Ele veste um sobretudo pardo e carrega um guarda-chuva preto, fechado. Eu começo a andar em direção à praça medindo meus passos para conseguir esbarrar nele enquanto atravesso a rua. Agora eu vejo os fios grisalhos em seus cabelos, vejo as rugas em seu rosto. Ele deve ter uns 40, parece um pouco cansado da vida, mas segue rateando pela estrada. Suas passadas são mecânicas. Eu me movo mais rápido.

Ele pára de repente, e olha para o céu nublado. Talvez esteja procurando uma resposta escondida entre os galhos nus das árvores do parque. Talvez seja apenas o instinto animal de gritar “Predador!”. Mas isso não importa, estou bem perto agora...

Ele esquece o céu e começa a andar novamente. Seus olhos encontram os meus a um quarteirão de distancia e eu acho que ele sabe. Mas não pára novamente. Ele não se desvia. E eu vejo a dor e a esperança e a história escrita em sua face, no exato e derradeiro instante de uma vida que está para acabar. E eu me apaixono por ele.

Eu me apaixono assim todas as noites, e todas as noites eu acordo com o coração partido novamente. A culpa não é de mais ninguém. A culpa é só minha. A culpa é só minha.

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