ABORDAGENS PEDAGÓGICAS PARA SALA DE AULA


Numa definição bem simplista, a abordagem pedagógica é a forma pela qual o professor trabalha um determinado assunto em sala de aula. Essa abordagem normalmente consta no plano de aula e varia de acordo com os objetivos do professor, depende do objeto de estudo em questão e também do perfil dos estudantes. Depois de experimentar algumas coisas em sala de aula, deixo aqui algumas abordagens que funcionaram comigo e que podem ser úteis a qualquer professor.

Para refletir sobre suas abordagens, tenha em mente as abordagens refletem métodos e técnicas de ensino, servindo como um caminho para se chegar a um determinado fim (os objetivos da disciplina, da unidade, da aula). Estes métodos podem aparecer de diversas formas em uma aula, considerando que uma aula normalmente tem três momentos: uma introdução (ou problematização), um desenvolvimento e uma conclusão (ou síntese avaliativa). As abordagens podem ser entendidas como expositivas, interrogativas, demonstrativas e ativas. Tente refletir sobre como cada uma das abordagens listadas a seguir se encaixaria em uma dessas quatro formatações (expositivas, interrogativas, demonstrativas e ativas).

Aula expositiva dialogada

Abordagem que parte de um diálogo entre professor e aluno sobre o objeto de estudo. Por ser um diálogo, a conversa tem que ser de mão dupla com participação intelectual ativa do aluno. A ideia é provocar questionamentos e reflexão sempre que possível, estabelecendo relações com o objeto de estudo, a realidade do estudante e o cenário da disciplina. Normalmente é acompanhada por explanações na lousa, projeções, imagens e vídeos. Trata-se da abordagem mais tradicional e prática, provavelmente a mais utilizada em salas de aula no Brasil. Aqui o importante é manter o estudante atento, provocando e questionando, para que o momento de aula seja o menos passível possível.

World Café

Método de socialização dinâmica e coletiva de resultados de atividades trabalhadas em grupos. Os estudantes são colocados em contato com um determinado objeto de estudo, por meio de outras abordagens. Esse objeto de estudo deve passar por uma análise por parte do grupo e fomentar alguma vivência, experiência e aprendizagem que possa ser organizado na forma de um resultado. O grupo então deve socializar esse resultado com os demais grupos, em rodas de conversa mistas. O professor deve misturar os componentes de todos os grupos de estudos, de forma que cada grupo contenha um componente dos demais grupos. A partir dessa mistura, cada grupo deve apresentar seus resultados na nova roda de conversa em que estão inseridos, falando de seus resultados para seus pares dos outros grupos. O objetivo é incentivar a coletividade, a oratória e a capacidade de comunicação. Uma vez que os componentes de um mesmo grupo são distribuídos em outros grupos, é preciso que cada componente esteja apto a socializar os resultados do seu grupo de estudo, o que demanda maior comprometimento dos componentes. Essa é uma abordagem que costumo utilizar para apresentações de ações e atividades em campo, desenvolvidas em comunidades carentes, na qual os alunos têm que socializar seus planejamentos e resultados.

Estudo de texto

Abordagem que parte do uso de textos para a exploração de ideias de um autor a partir da leitura crítica de um texto. Trabalha a compreensão, a análise e a interpretação do estudante. Ao fim, o ideal é que o aluno seja capaz de tecer algum comentário que enriqueça a leitura do texto, que sirva como conclusão. A ideia aqui é socializar a capacidade de leitura e argumento do estudante, verificar seu entendimento. O estudo de texto tem que gerar um feedback ainda em sala de aula. Uma leitura sem esse retorno poderia ser feita fora de sala de aula, então por que perder esse tempo?

Portfólio

Construção de um registro de um objeto de estudo ou de uma sequência de aulas, evidenciando seus tópicos mais relevantes e maiores dificuldades. Serve como depósito de observações, impressões e pensamentos acerca dos momentos de estudo. O modelo de registro pode ser na forma de um diário manuscrito ou digitado, com fotos ou outras mídias desejadas. Esta não é uma abordagem em si, mas serve como complemento a outras abordagens e constitui uma importante ferramenta de avaliação (do estudante) e autoavaliação (do professor). O ideal é que o portfólio seja construído ao longo das aulas, sendo verificado e avaliado continuamente pelo professor. Ao término de um ciclo de aulas (um bimestre, um semestre) o portfólio torna-se uma ótima forma de avaliar o andamento das aulas, das atividades e do aprendizado do estudante.

Tempestade cerebral

Abordagem que serve como problematização e introdução a um assunto. Trata-se da realização de um momento de socialização de ideias por meio da criatividade, onde não há certo nem errado, onde tudo é considerado como parte do cenário do objeto de estudo. O professor lança uma palavra, uma situação, uma imagem ou qualquer outro dispositivo que provoque os estudantes a interagir com a ideia proposta por meio de palavras ou pequenas ideias acerca do assunto. Essa interação pode ser registrada de alguma forma (na lousa, por exemplo) e, dela, pode-se fazer uma reflexão e análise. Essa abordagem serve como ponto de partida para resgatar conceitos e ideias, fazer análises e, a partir daí, seguir adiante em uma determinada abordagem.

Mapa conceitual

Abordagem que parte da construção de um diagrama que indica a relação entre conceitos relacionados ao objeto de estudo em questão. A ideia é estruturar o conteúdo de forma bidimensional. A proposta do mapa mental é identificar os conceitos-chave, organizá-los em ordem de relevância e traçar um ponto lógico de relação entre estes conceitos. A forma gráfica do mapa mental admite uso de palavras, frases curtas e imagens. Trata-se de uma abordagem muito útil para sintetizar determinados assuntos e encerrar um determinado conteúdo. Pode ser trabalhado diretamente pelo professor, na lousa, ou pode ser construído com a interação dos estudantes. O ideal é que o mecanismo de construção de mapas mentais seja assimilado pelos estudantes, para que estes possam eles mesmos construir seus próprios diagramas. O mapa mental é uma ferramenta poderosa de aprendizado, uma vez que exige a assimilação de conceitos e relações, necessitando de um certo esforço intelectual para ser construído. É uma das minhas abordagens favoritas e mais frequentes.

Estudo dirigido

É o ato de estudar sob a orientação e diretividade do professor, visando sanar dificuldades específicas. A prática pode ser individual ou coletiva, feita a partir da leitura de um roteiro produzido pelo professor. O estudo dirigido deve levar a resolução de questões e situações problemas a partir do material estudado. O ideal é que o resultado dos estudos dirigidos sejam socializados, analisados e corrigidos. Por uma questão de praticidade, esta é uma abordagem que pode ser melhor utilizada como fechamento de uma aula, sendo trabalhada pelo estudante fora do horário de aula, de forma autônoma. O ideal é que, no próximo encontro entre professor e estudante, o estudo dirigido seja verificado pelo professor.

Lista de discussão por meios informativos

A aula acaba quando acaba o horário de aula? Essa abordagem parte de um debate coletivo, feito a distância e fora de sala de aula, acerca de um assunto em comum aos estudantes. Serve ao propósito de discutir, debater, analisar e aprofundar um assunto de forma coletiva, participativa e interativa, contando eventualmente com o professor como orientador do debate. Nos tempos atuais, a proposta cabe perfeitamente no contexto das redes sociais. Grupos de Facebook são ótimas ferramentas para utilizar essa abordagem. Logicamente, esta é uma abordagem complementar que deve ser trabalhada paralela a outras abordagens. Tenho utilizado essa abordagem com meus estudantes e, por vezes, me surpreendo com os materiais compartilhados, com as novidades apresentadas e com as interações entre as turmas. Aqui pode ser interessante propor um espaço digital que misture e integra turmas diferentes, com perfis diferentes.

Solução de problemas

Abordagem que parte do enfrentamento de uma situação nova proposta pelo professor. Enfrentar essa situação deve exigir resgate conceitual e pensamento reflexivo, crítico e criativo a partir de dados expressos no problema a fim de que os estudantes possam apresentar uma solução para o mesmo. Trabalha-se com hipóteses e análise de dados que possam nortear a resolução e se relacionar com leis e princípios que ajudem em sua fundamentação. Serve como uma abordagem avaliativa, após a iniciação do estudo de alguns conceitos básicos. Essa abordagem pode servir também como introdução a um novo assunto, uma vez que pode provocar a busca por novos conceitos ancorados em conhecimentos já sedimentados.

Seminário dirigido

Apresentação individual ou coletiva de estudantes acerca de um objeto de estudo. É requisitado que os alunos façam um estudo a respeito de um determinado assunto (livro, artigo, capítulo, tema) e criem uma apresentação deste assunto em forma de aula expositiva ou com outra abordagem que permita a explanação do objeto de estudo para o grande grupo em sala de aula. O objetivo é trabalhar a pesquisa e a oratória, de modo que se permita também ao estudante se sentir na posição de professor por um momento. Os seminários costumam ser utilizados para abordar tópicos paralelos aos conteúdos tratados pelo conteúdo programático de uma disciplina.

Estudo de caso

Análise minuciosa e objetiva de uma situação real que necessita ser investigada e é desafiadora para os envolvidos. O professor apresenta e expõe o caso a ser estudado e o grupo de estudantes analisa o mesmo, expondo seus pontos de vista e os aspectos sob os quais o problema pode ser enfocado. O grupo debate as soluções, discernindo as melhores conclusões. O objetivo é avaliar a aplicação dos conhecimentos dos estudantes, a coerência na prescrição da situação, a riqueza na argumentação e a capacidade de síntese do cenário exposto pelo caso.

Oficina

Reunião de um grupo de pessoas com interesses comuns, a fim de estudar e trabalhar para o conhecimento ou aprofundamento de um determinado tema, sob orientação de um professor. Possibilita aprender a fazer algo melhor, mediante a aplicação de conceitos e conhecimentos previamente adquiridos. A oficina exige um ambiente organizado e materiais didáticos úteis ao trabalho. A oficina pode ser aplicada por meio de estudos individuais, consulta bibliográfica, palestras, demonstrações, debates, atividades práticas e outras abordagens. Eu costumo começar os semestres trabalhando uma oficina de estudos, abordando técnicas de estudo, leitura e resolução de atividades, a fim de otimizar a capacidade de aprendizado dos meus alunos.

Estudo do meio

É um estudo direto do contexto natural e social no qual o estudante se insere, visando uma problemática de forma interdisciplinar. A ideia é criar condições de contato com a realidade, propiciando a aquisição de conhecimentos de forma direta por meio de experiências vividas. Para que seja viável, o professor e os alunos decidem o foco do trabalho, objeto de estudo e ambiente de atividade. O meio escolhido deve ser visitado pelos alunos que desenvolverão atividades de reconhecimento local, levantamento de dados, diagnóstico situacional, e levantamento de hipóteses. Uma vez feita essa primeira etapa, os estudantes se organizam para apresentar e socializar o resultado de suas atividades para o grande grupo. Essa abordagem pode ser muito bem utilizada na forma de projetos de extensão universitária. Costumo usar essa abordagem com meus alunos da área da saúde, propondo ações de promoção em saúde coletiva em comunidades carentes. Os resultados são excelentes e marcantes. Trata-se de uma abordagem trabalhosa, mas maravilhosa (quando dá certo).

Ensino com pesquisa

Utilização dos princípios do ensino associados aos da pesquisa. A ideia é assumir o estudo com uma situação construtiva e significativa, de forma autônoma, fazendo uma passagem da simples reprodução para um equilíbrio entre reprodução e análise. Para isso, o estudante deve ser desafio como investigador e estimulado a trabalhar seguindo as seguintes etapas: a) definição do problema de pesquisa; b) definição de dados a serem coletados e dos procedimentos de investigação; c) definição da análise dos dados; d) interpretação e validação das suposições; e) síntese e apresentação dos resultados; f) revisões e recomendações. O objetivo, ao término da atividade, é imbuir o estudante com o espírito investigativo e trabalhar a metodologia científica. Trata-se de uma abordagem que casa muito bem com a abordagem de estudo do meio, servindo também para trabalhar e refinar os conhecimentos em metodologia científica dos estudantes.

Estas são as abordagens com as quais tenho mais contato. Existem outras, claro. Se tiver alguma contribuição a fazer, por favor, deixe um comentário.

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