VIVA como se fosse MORRER | Chuck Palahniuk

Além de me exercitar regularmente e correr bem, ponho no topo das prioridades cometer suicídio de dois em dois anos. Algumas garotinhas sonham com aquele casamento de filme, planejando e vislumbrando o vestido de noiva ideal, mas desde pequeno venho planejando o supremo assassinato de mim mesmo. Já desenhei o quadro: eu cadáver inteirinho, sem grandes bagunças. Nada de arma ou forca, nenhum mergulho de prédio.


Como repórter de jornal nos Estados Unidos, todo inverno me mandavam cobrir a mesma cena: uma família encontrada morta depois de tentar aquecer a casa trazendo uma churrasqueira de carvão comum para dentro. Em todos os casos, tinham sido sufocados pelo monóxido de carbono enquanto dormiam, e lá ia eu visitar o local com a polícia. Aquelas famílias, mamãe, papai e crianças cobertinhos em suas camas, pareciam... muito bem. Tão tranquilos. Sem qualquer sinal de contorções, vômitos, espasmos. Os rostos suaves e relaxados como se estivessem dormindo.

Se você me perguntar, esse é o jeito certo de ir. Eu devo estar influenciado por morar em um estado onde está na lei que você pode encerrar a cena você mesmo. Algum dia vou contar de quando me convidaram para um bota-fora em que o anfitrião bebeu fenobarbital. Eu não conhecia ninguém ali, especialmente o anfitrião, que estava a algumas semanas de uma morte natural de câncer de cólon. Uma amiga de um amigo de uma amiga havia me telefonado chorando e implorando que eu fosse com ela, porque pegaria mal, seria até meio patético chegar desacompanhada a um evento daqueles. É incrível, mas nem Judith Martin, nem Emily Post ou Amy Vanderbilt, ninguém tratou da etiqueta desse tipo de situação - o que usar, o que levar como presentinho discreto, como se dirigir ao moribundo estranho. O pior é que eu não sabia do caráter de Saída Final da reunião até que pediram aos convidados para dar as mãos e acender as velas. Foi meu blind date com a morte.

A autoeutanásia é uma grande tendência em formação. A cada ano, nos EUA, cerca de 26 mil homens morrem pelas próprias mãos, incluindo alguns mais espertos e corajosos do que você e eu. Hunter S. Thompson. Kurt Cobain. Spalding Gray. David Foster Wallace. Esses foram homens de realizações, finanças e talentos infinitos, e vamos sentir falta deles. Mas, se você vai mesmo encerrar a conta nesse mundo, deve primeiro prometer que vai assumir uma tarefa mais difícil. Vai ter de esperar sete dias, e nessa última semana de sua vida vai ter de realizar o que chamo casualmente de os Trés Ls. Não se preocupe. O tempo passará voando. Como na última semana de um emprego que você odeia, cada momento será banhado de nostalgia e adoçado pela noção de que você é um cadáver ambulante. O Temporário Definitivo. O jogo está quase terminado, e você só fazendo cera.

O primeiro L é o de limpeza. Limpe o banheiro. Limpe o carro. Lave a roupa e esfregue os rejuntes. Arraste a geladeira e limpe atrás dela. Lave as janelas. Faça tudo isso. O segundo L é o de Liberar. Esvazie os arquivos e descarte tudo, exceto seus papéis mais importantes. O mesmo vale para os armários e recordações - é isso mesmo, todas as suas posses. O que você não tem olhado recentemente mande bala. Doe. Destrua. Jogue toda a sua histórias e segredos no lixo, Faça o mesmo com os remédios envelhecidos do armário da cozinha. Além disso, saia e vá atrás de um bom corte de cabelo. Apesar da crença popular, o cabelo humano não cresce depois da morte, então é melhor você já ficar bonito. Agrade-se, mime-se bastante; você tem minha permissão.

Qualquer um dirá que não são os grandes desastres que liquidam a gente. Não, no caso de uma invasão de aliens hostis ou de um ataque de zumbis comedores de gente, a maioria dos caras vai se juntar para a briga. Até um terremoto médio ou um incêndio florestal constitui uma boa mudança de ritmo. Mas o que acaba mesmo com a gente são as multas de trânsito. A comida estragada no fundo da geladeira. A roupa suja no fundo do cesto, que não vê a luz do dia desde 1995. Depois que você deixa acumular um volume crítico dessas pequenas dessas aporrinhações, você afunda.

Com relação a liberar, o que quero dizer é: se você pode fazer a barba, você pode viver.

O terceiro L é o de Ligação, conexão. Significa contatar todo mundo que você já conheceu e dizer alguma coisa boa. Não importa quanto você já conheceu e dizer alguma coisa boa. Não importa quanto você odeia a pessoa, largue essa amargura. Identifique algum aspecto de cada pessoa, algo que você admirava secretamente, ou invejava, ou desejava, e elogie isso. Diga o quanto você tinha ciúme, seja da carreira, seja do casamento feliz, seja de uma malha de lã de gola rolê do sujeito.

Esqueça a autopiedade. Esqueça a raiva e as defesas. Perdoe todo mundo e perdoe a si mesmo. Em outra semana, eles vão estar com os olhos caídos no seu caixão, doloridos por dentro. Então, por enquanto, dê a eles um agrado. Dê a eles um refresco.

Vá mais longe, imagine completamente sua morte: e o calor aconchegante, a zonzeira agradável. A trilha de seu filme ou sua música preferida tocando ao fundo. Visualize seu banheiro límpido, os fichários vazios. Depois imagine o mundo sem você. Os mesmos congestionamentos e as regiões famintas. A mesma baboseira nas brigas políticas e seu time sempre eliminado do campeonato. As pessoas vão esquecer de você. Todo mundo vai esquecer de você. Você não é nenhum Kurt Cobain, então acenda a churrasqueira e asse uma linguiça...

Mas se você completou os Três Ls é bem provável que você nem se dê ao trabalho. Porque então vai estar cercado de amigos que agora reconhecem como você é um cara valioso e sensível. Seu forno vai estar limpo, seu carro aspirado. Da mesma forma como você procrastinou a declaração do imposto de renda, pode procrastinar sua morte. E, ao menos por enquanto, seu cabelo está... uma beleza.

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