O BALLET (E A ESCALADA) DA VIDA

Pirouette

A imagem é icônica. A bailarina rodopia em um pirouette sustentando graça e leveza sobre a ponta de um só pé, parecendo flutuar sobre o chão. A imagem é icônica. Representa o auge, representa a perfeição. A imagem é icônica, provoca desejo. Desejamos esta competência, desejamos esta habilidade, desejamos este auge.

Para chegar no auge como a bailarina icônica que nos inspira, num pensamento simplista, é relativamente bem simples. Eu vou escrever aqui a fórmula para o sucesso automático (anote). Basta dominar um demi pliê, um grand pliê e o próprio pliê. Então você deve fazer um battement tendu à terré, um battement en l’air seguido de um grand battement, fechando com o battement frappe. Tem que saber cambré, relevé, soutenir, deturne. Tem que saber o pirouette coupé, o pirouette passé. Por fim, o cabriole e debulê. Faça tudo isso dentro de um determinado plano de tempo, dentro de um plano de eixos. Pronto, sucesso. Quer passar no vestibular? Simples, é só assinalar as questões corretas no gabarito. Quer ganhar na loteria? Simples, basta marcar logo os números certos em vez de ficar sempre assinalando aqueles números errados que você sempre assinala. Tudo é muito simples sob essa ótica. Na verdade, tudo é simples. A gente que complica…

Mas, voltando à bailarina… não basta saber só os passos. Não, a bailarina precisa ainda desenvolver uma série de objetivos educacionais, ter frequência, demonstrar interesse e desenvolver disciplina. Precisa trabalhar a estética corporal, a postura e a flexibilidade. Precisa demonstrar objetivos artísticos, coordenação, técnica , ponta e equilíbrio. Pronto, mais sucesso.

A bailarina tem que fazer tudo isso para chegar à primeira graduação de ponta. Tem que fazer tudo isso para merecer calçar uma sapatilha de ponta. Tem que passar por tudo isso para poder, quem sabe, ser a bailarina icônica. Tudo isso, para, quem sabe, atingir o auge. Tudo isso para manifestar a perfeição.

A bailarina tem que passar por muita coisa para ser perfeita – como se exige dela. E a gente também tem que passar por muita coisa para chegar lá. Sabe, ? Sim, lá mesmo. Lá longe, lá onde todos querem chegar, mas, de fato, poucos vão.

E justamente esse é o problema, entende? A gente tem que pagar um preço para chegar lá, para flutuar acima do chão. Esse preço tem o custo de muito suor, de algumas lágrimas e de muita dor, muito sacrifício. Não é qualquer um que se dispõe a pagar o preço. Por isso, são tão poucos que podem flutuar sobre o chão, como a bailarina. Por isso são tão poucos que sentem o sabor do auge, da plenitude. É mais fácil aceitar o chão, se igualar ao resto, se nivelar por baixo.

O problema é que só vemos o topo, mas não vemos a caminhada. Idealizamos o topo mas não percebemos cada degrau para chegar até lá. Quantas pessoas você conhece que já querem ser ricas desde o primeiro emprego, sem ralação? Sem se foder pra isso? Eu conheço. Um monte de gente. E é estranho… vejo todo dia, cada vez mais frequentemente, pessoas que almejam o topo em suas vidas, em suas carreiras e aspirações. Mas almejam tudo logo, tudo para agora, sem habilidades ou competências para chegar lá. Gente que, na boa, nem merece a chance, pelo simples fato de não se esforçarem.

Perceba, a vida é uma escalada. A bailarina que sustenta todo o peso do corpo sobre a ponta de um só pé, tem, nessa pequena elevação em sua altura, uma grandiosa escalada que a levou até lá. Para a bailarina, subir estes poucos centímetros é muito alto. Custa muito. Alcançar a plenitude em qualquer esfera da vida exige essa escalada, passo a passo, pacientemente. Chegar lá (sim, , você sabe… ) exige construção, conhecimento e aprendizado. E é preciso aprender uma coisa de cada vez. Dominar uma coisa de cada vez. Subir um degrau de cada vez. A vida não acontece aos saltos. A bailarina, antes de saltar, precisa aprender a andar como bailarina. Precisa aprender a encantar como bailarina. A sorrir como bailarina. No balé da vida, temos que seguir a mesma premissa.

Você aprende – a título de exemplo – que existe uma coisa chamada felicidade. Contaram pra você que ela existe, essa tal felicidade. E você acreditou. E agora você quer ser feliz, simplesmente assim. Não, meu amigo. Não é assim. A felicidade é o seu auge, e não é assim tão simples. Você precisa aceitar que tem que aprender muita coisa para chegar lá. … sabe? Você tem que aprender aquelas coisas sobre o amor. Que o amor é o que o amor faz. Que solidão é saudade acompanhada. Que existem vários tipos de dor. Que tudo pode ser nada e nada pode ser tudo. Que qualquer coisa é melhor que nada. Que nada é muita coisa. Que amores se tornam amizades e amizades se tornam amor. Você aprende que biscoito não é bolacha. Que o seu deus é só mais um deus, que sua religião é só mais uma religião. Que aprender é coisa que se aprende. Que um olhar diz mais que muitas palavras. Que não é preciso ser professor para ensinar. Quem não é preciso de aula para aprender. Que é errando que se aprende e que, as vezes, mesmo errando, a gente não aprende. Aprende que é juntando pequenas coisas que se constroem grandes coisas. E que sua vida é uma construção feita de pequenas coisas. E que essas pequenas coisas podem ser pesadas, apesar do tamanho. E é só quando sente o peso das coisas que aprende o valor que elas têm.

As bailarinas sabem disso tudo.
Agora você também sabe.
Na verdade, você já sabia.
Estou só te lembrando.
Então é isso, agora vai lá e enchante...

Este texto foi originalmente publicado por mim no site A QUINTA DIMENSÃO. Esta é uma versão revisada do texto original.

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